Entenda
Por que meu carro carrega mais devagar que o outro no mesmo carregador
Dois carros no mesmo eletroposto de 80 kW, tempos completamente diferentes. A explicação é o limitador interno do veículo e a curva de carga — não o carregador.
Cena real no nosso eletroposto: dois carros plugados lado a lado, mesmo totem, mesma potência disponível. Um sai em 30 minutos, o outro leva quase uma hora. O dono do segundo pergunta se o carregador está com defeito.
Quase nunca está. Quem controla a velocidade da recarga é o carro, não o carregador.

O carregador oferece, o carro decide
Um eletroposto de 80 kW não "empurra" 80 kW para dentro do carro. Ele oferece até 80 kW. Quem diz quanto vai aceitar, a cada segundo, é o BMS — o computador que gerencia a bateria do veículo.
O BMS considera três coisas ao definir esse número:
- O teto do próprio carro. Cada modelo tem um limite de projeto.
- O quanto a bateria já está cheia. Quanto mais cheia, mais devagar.
- A temperatura da bateria. Fria demais ou quente demais, ele reduz.
Fator 1: o teto do modelo
Esse é o que explica a maior parte das diferenças. Alguns exemplos de carros vendidos no Brasil:
| Modelo | Aceita no máximo | No nosso carregador de 80 kW |
|---|---|---|
| Renault Kwid E-Tech | 30 kW | Limitado pelo carro |
| Chevrolet Spark EUV | 50 kW | Limitado pelo carro |
| BYD Dolphin Mini | 60 kW | Limitado pelo carro |
| GWM Ora 03 | 64 kW | Limitado pelo carro |
| BYD Yuan Plus / Atto 3 | 88 kW | Limitado pelo carregador |
| BYD Seal | 150 kW | Limitado pelo carregador |
| Tesla Model Y | 175 kW | Limitado pelo carregador |
Repare no que isso significa: um Kwid num carregador de 350 kW continua carregando a 30 kW. O totem não muda nada. Se o seu carro tem teto de 30 kW, ele é um carro de 30 kW em qualquer lugar do mundo.
E o contrário também vale: do Yuan Plus para cima, todos entregam o mesmo desempenho no nosso ponto, porque o limite passa a ser o carregador de 80 kW.
Fator 2: a curva de carga
Bateria não enche como um balde, em ritmo constante. Ela enche como um estádio esvaziando pela porta: no começo sai muita gente rápido, no fim vira fila.
Na prática:
- Até cerca de 50% — o carro aceita perto do máximo que consegue
- Entre 50% e 80% — começa a reduzir de forma perceptível
- Acima de 80% — cai muito, às vezes para menos de um terço do pico
Por isso a indústria fala sempre em "10 a 80%" e não em "0 a 100%". Os últimos 20% podem levar quase tanto tempo quanto os 60% anteriores.
Um exemplo com números do nosso carregador, para um carro de bateria grande:
| Trecho | Tempo aproximado |
|---|---|
| 20% → 80% | cerca de 45 minutos |
| 80% → 100% | cerca de 40 minutos |
O segundo trecho entrega um terço da energia do primeiro e leva quase o mesmo tempo. É por isso que a recomendação geral é desplugar em 80% e seguir viagem.
Fator 3: a temperatura
Bateria de íon-lítio odeia frio. Abaixo de uns 10 °C, o BMS reduz bastante a potência para proteger as células — em alguns modelos, pela metade.
Isso aparece de manhã cedo no inverno, quando o carro passou a noite na rua. Depois de rodar 20 ou 30 minutos, a bateria esquenta e a recarga acelera.
Alguns carros têm pré-condicionamento: se você programa o eletroposto no navegador do carro, ele aquece a bateria no caminho e chega pronto para receber carga rápida. Vale conferir se o seu tem.
Como saber o tempo do seu carro
Fizemos uma calculadora de recarga com mais de 70 modelos vendidos no Brasil. Ela usa a capacidade real da bateria, o teto de potência do modelo e trata separadamente o trecho acima de 80% — que é onde as contas simples erram feio.
Meu carro carregando a 45 kW num carregador de 80 kW é defeito?
Provavelmente não. Confira o teto do seu modelo e o nível da bateria. Se está acima de 70%, a queda é esperada. Se está com bateria baixa, bateria em temperatura normal e mesmo assim muito abaixo do teto do modelo, aí vale chamar o suporte para checarmos o equipamento.
Vale a pena esperar até 100%?
Só se você realmente precisa da autonomia total para o próximo trecho. Em tempo por quilômetro rodado, os últimos 20% são de longe a parte mais cara da sua parada.
Carregar rápido estraga a bateria?
O uso ocasional de recarga rápida tem impacto pequeno e é para isso que o carro foi projetado. Os fabricantes recomendam usar AC no dia a dia e DC em viagem ou quando precisa de velocidade — que é exatamente o caso de quem para num eletroposto.
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